O risco do Carnaval para os outros setores da economia

O risco do Carnaval para os outros setores da economia

A experiência mostra que o entendimento é o melhor caminho para enfrentar crises como a provocada pela pandemia do novo coronavírus. Ante a chegada de um inimigo que Prefeitura de Salvador e governo da Bahia inteligentemente identificaram como comum a ambos, seus representantes à epoca, ACM Neto (DEM), pelo município, e Rui Costa (PT), em nome do Estado, conseguiram deixar as divergências políticas e ideológicas de lado para se unir em torno do enfrentamento a uma doença que, não fosse a atitude rápida e articulada dos dois, poderia ter causado um estrago arrasador entre os baianos.

Ocorre que, embora relativamente controlada, principalmente pela ampliação da cobertura vacinal, como era esperado, a doença persiste aqui e ali sem que se possa ainda baixar a guarda para o risco que sua facilidade de transmissão representa. Este poderia ser um argumento suficientemente forte para dissuadir os defensores da realização de festas populares como o Carnaval. Se a característica do evento é exatamente a aglomeração, aliada à descontração que inviabiliza o uso de barreiras como a máscara, como realizá-lo sem o risco de provocar uma nova onda de Covid no Estado e no país?

Para enfrentar o dilema é preciso que o governador, que acumula a experiência de ter enfrentado os momentos mais difíceis da pandemia no Estado, e o prefeito Bruno Reis (DEM), que, como vice e auxiliar de primeira hora, apoiou as medidas duras corretamente adotadas na época pelo aliado e antecessor, sentem urgentemente à mesa para conversar e traçar um plano de superação à pressão de que têm sido alvos do setor de entretenimento, de fato, de grande importância para a economia especialmente de Salvador, mas, seguramente, não o único, nem capaz de sustentá-la ao longo de todo o ano.

Rui já vem deixando claro que não está disposto a se submeter aos empresários da área. Recentemente, declarou que não é do tipo que aceita cabresto de ninguém e esta semana disse que não tem nada contra quem ganha milhões por meio da festa, mas que o mais importante é a vida das pessoas, num sinal de que não vai, depois de todo o esforço que empreendeu, capitular, ainda mais num momento em que, como ele próprio já frisou, vários países da Europa voltam atrás e retomam medidas radicais como a quarentena em decorrência do erro de suas populações de acharem que a doença acabou.

Recentemente, de forma muito coerente, ele baixou uma portaria obrigando servidores que não se vacinarem a se justificar. Mas o que tanto o governador quanto o prefeito precisam é abrir o quanto antes um canal de diálogo com os vários setores econômicos que estão avessos à festa, mas não querem expor sua opinião por medo das críticas. Justificadamente, eles temem que a quarta onda se instale depois de apenas uma semana de folia e resulte no fechamento de toda a economia nos longos meses seguintes. Com toda a razão, não querem reviver o pesadelo da luta pela sobrevivência destes últimos dois anos.

Raul Monteiro*

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