Brasil

O pacto de mediocridade no ano que não existiu para estudantes

No próximo dia 17 expira o prazo do atual decreto que suspende as aulas presenciais na rede pública e privada da Bahia. Encerraremos 2020 sem qualquer perspectiva sobre o que vai acontecer com o ano letivo que não aconteceu, mas que os governantes insistem em fingir que é possível recuperar. Parece uma ladainha, que a educação não tem sido prioridade durante a pandemia, mas é uma das poucas verdades unânimes: estudantes não tiveram a atenção devida durante a maior crise sanitária do último século.

Porém, por mais que tenhamos criticado a falta das salas de aula, fizemos um verdadeiro pacto de mediocridade, envolvendo entes públicos e privados. A definição vem de uma mãe, cuja filha estuda em uma escola particular no interior da Bahia. Sem preparo prévio para um ano inteiro à distância, as instituições de ensino fingem ensinar, as crianças e adolescentes fingem aprender e os pais fingem acreditar que 2020 foi um ano letivo apenas sem aulas presenciais. O estrago desse processo será sentido no longo prazo. Só não sei se estamos preparados para esse debate.

Não estou defendendo o retorno das aulas presenciais. Acredito que sim, a suspensão das atividades nas escolas foi importante para conter o avanço ainda mais acelerado do coronavírus. E não há protocolo seguro para reunir estudantes em espaços fechados. Especialmente quando a arquitetura passou a priorizar salas com menos janelas e com alunos cada vez mais confinados. Independente de estarmos numa segunda onda ou se a primeira foi engolida por essa nova leva de contaminações, o que diversas autoridades sanitárias garantem é que a distância das escolas desacelerou a disseminação da Covid-19.

Apesar disso, há quem prefira seguir com o discurso ligeiramente hipócrita de que será fácil recuperar o tempo perdido. Será muito difícil. Porém uma possível passagem menos traumática seja admitir que o atual ano letivo não existiu. Tanto para a rede pública, que praticamente não teve acesso ao ensino à distância, quanto para a rede privada, onde o jogo de fingimento citado ali atrás prevaleceu. Falta os governantes de todas as esferas admitirem isso. Algo que não deve acontecer, por mais que façamos a cobrança do posicionamento.

Frise-se: continuo achando que a suspensão das aulas foi a atitude mais adequada, diante das alternativas possíveis. Mesmo que tenha sido a contragosto de uma parcela negacionista da população, a falta de aulas presenciais foi um freio para evitar o colapso da saúde. Mas isso não me impede de pedir coerência para cobrar que os gestores públicos sejam claros ao ponto de falar que não houve 2020 para a comunidade escolar.

Fonte: Bahia Noticia/ Fernando Duarte

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