Ministro da Economia aplica milhões no Exterior e doméstica leva a culpa

A anestesia alucinógena ministrada aos bolsonaristas radicais, tão poderosa quanto a injetada nos ultraesquerdistas no período áureo do lulo-petismo, tem funcionado plenamente no episódio dos Pandora Papers, através dos quais foi possível descobrir que o ministro da Economia do Brasil, exatamente, o homem encarregado de cuidar da saúde financeira do país e de zelar por sua moeda acima de tudo, inclusive de Deus, resolveu deixar seu rico dinheirinho muito bem guardado numa offshore, a salvo de todas as turbulências e riscos trazidos à Nação brasileira pelo próprio governo que representa, ao lado de personalidades de dar gosto.

A bem da verdade, o financista Paulo Guedes não aplicou a módica soma de cerca de US$ 10 milhões num paraíso fiscal depois de ter sido nomeado ministro do governo Jair Bolsonaro (sem partido). Como outros milionários – e por que não rentistas, porque é a classe que representa o grosso da mentalidade da elite deste país -, ele resolveu proteger seu patrimônio das conhecidas intempéries nacionais às vésperas da reeleição de Dilma Rousseff (PT), quando toda a gente descolada como ele já sabia que a presidenta – com “a” – havia jogado o país na lona do descalabro fiscal e caminhava apenas para consolidar o desastre no segundo mandato.

Se naquele momento Guedes não tinha planos nem acreditava que fosse possível se tornar, por um mês sequer, ministro da Economia, ele tinha a obrigação moral de, quatro anos depois, uma vez aceitando a indicação para o ministério, não apenas comunicar que possuía os recursos no exterior, como dar um jeito de trazê-los de volta imediatamente ao Brasil, como forma não exclusivamente de demonstrar que acreditava em seu país mas, igualmente, no presidente que o escolheu para assessorá-lo, bem como na próprio taco para ajudar a dar um jeito na bagunça que herdou da catástrofe dilmista.

Dessa forma, Guedes escaparia das insinuações que passaram a circular concomitantemente à descoberta de sua exuberante assinatura nos papéis de Pandora de que apostou abertamente na depreciação da moeda nacional com o objetivo de fazer quase triplicar, em Real, o valor inicial que aplicou na sua offshore do coração. Não há quem possa esquecer que, para justificar sua tese de que a moeda brasileira andava muito forte em relação à americana, atrapalhando a indústria nacional, o ministro foi a público defender que “dólar alto é bom”, o que fez acompanhar de declarações estapafúrdias sobre o engarrafamento de domésticas brasileiras nos Outlets da Flórida.

Só para lembrar o brilhantismo da memorável pérola guedista: “Antes, o câmbio estava tão barato que todo mundo estava indo para a Disney, empregada doméstica indo para a Disneylândia. Uma festa danada. Espera aí. Vai passear ali em Foz do Iguaçu, vai passear no Nordeste. Está cheio de praia bonita. Vai para Cachoeira de Itapemirim, conhecer onde o Roberto Carlos nasceu. Vai passear pelo Brasil, conhecer o Brasil. Está cheio de coisa bonita para ver”, disse, então, o tão bonzinho quanto desinteressado ministro da Economia, excedendo-se na magnanimidade do conselho às assalariadas. Cá pra nós: é vergonha alheia que chama?

* Artigo do editor Raul Monteiro publicado na edição de hoje da Tribuna.

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