Brasil cai quatro posições no Ranking de Liberdade de Imprensa da RSF

Brasil cai quatro posições no Ranking de Liberdade de Imprensa da RSF

O Brasil caiu quatro posições e passou à 111ª colocação entre 180 países no ranking de liberdade de imprensa global da organização Repórteres sem Fronteiras, anunciado nesta terça-feira (20/4) em Paris. Saiu da zona laranja, onde estão as nações cuja situação é considerada sensível, e entrou para a vermelha, um clube formado por aqueles onde a situação da liberdade de imprensa é classificada como difícil.

Mas o País não está sozinho nisso. O estudo revela que “a principal vacina contra o vírus da desinformação, o jornalismo”, está total ou parcialmente comprometido em 73% das 180 nações que fazem parte do ranking de 2021. Apenas 7% dos países ficaram na zona branca, que sinaliza uma boa situação.

Entre as razões apontadas pela RSF destacam-se a pandemia do coronavírus, usada como pretexto para violações que vão de perseguições a leis restritivas e censura. E as redes sociais, nas quais o crescimento de ataques a profissionais e veículos contribuiu para minar a confiança do público no jornalismo e fomentar violência por parte de cidadãos, que se tornaram rotina em vários países.

Este é o quarto ano consecutivo de queda do Brasil, que em 2018 estava na 102ª posição. Coube ao País a oitava pior colocação das Américas e a terceira pior da América do Sul.

O ranking de liberdade de imprensa da RSF é mais um momento de exposição negativa, contribuindo para desgastar novamente a reputação do País em nível global. O presidente Bolsonaro é citado no texto de apresentação do estudo, ao lado de Nicolás Maduro, como exemplos de líderes que promovem desinformação. Somente três governantes são destacados na abertura (o outro é o presidente do Egito, Abdel Fattah).

E a Agência Pública, mencionada como exemplo do trabalho de veículos que vêm desmascarando a desinformação, é a única organização jornalística citada na abertura do documento.

Os embates de Bolsonaro e de seus filhos com a imprensa foram igualmente salientados na análise regional das Américas. Em fevereiro passado, a RSF havia feito uma campanha global denunciando restrições ao trabalho da imprensa diante do agravamento da crise de saúde pública.

Nos Estados Unidos, a liberdade de imprensa conseguiu resistir melhor do que no Brasil. Nem a campanha permanente de Donald Trump contra veículos e jornalistas – o ex-presidente tuitou mais de uma vez por dia contra a imprensa em cinco anos e meio – foi capaz de afetar a livre prática do jornalismo. O país subiu uma posição e agora está em 44º no ranking da RSF.

Mais um efeito colateral do coronavírus sobre a sociedade

Na edição 2021 do relatório, a Repórteres sem Fronteiras afirma que a crise de saúde pública causou uma tendência generalizada de cerceamento ao trabalho jornalístico globalmente, com uma flagrante deterioração do indicador que avalia restrições de acesso a informações e entraves à cobertura da imprensa.

A situação melhorou em duas das regiões pesquisadas e piorou em quatro.

No mundo todo, jornalistas se depararam com um maior número de obstáculos impostos pelos governos para obter informações, por causa da crise sanitária ou tendo ela como pretexto, como no caso do Brasil.

Nesse cenário, um decreto “anti-fake news” que concedeu ao governo da Malásia o poder de impor sua própria versão da verdade fez com que o país tivesse a maior queda no ranking. Perdeu 19 posições, caindo para a 119º posição.

O estudo enfatiza que a desinformação, associada à intensificação da violência política na internet praticada por autoridades e seus seguidores contra jornalistas, é um dos maiores desafios para o jornalismo atual:

“Nos últimos anos, governos incorporaram no seu discurso público uma estratégia de deslegitimação do papel da imprensa.

Por meio das redes sociais, autoridades impulsionam seus seguidores a ataques contra jornalistas e meios de comunicação, na perspectiva de desviar a atenção sobre revelações comprometedoras, manter sua base política mobilizada e ter maior controle do debate público.”

Em março, o jornal The Guardian teve acesso às regras do Facebook para moderação de conteúdo, revelando que a rede orienta formalmente os moderadores a não remover ataques e até pedidos de morte de figuras públicas, incluindo jornalistas.

Um estudo do Internet Institute da Universidade de Oxford identificou a atuação de tropas cibernéticas financiadas por governos em vários países – inclusive no Brasil – dedicadas a espalhar desinformação e promover discurso de ódio, incluindo a desvalorização do jornalismo.

Em vários países europeus (Itália, Alemanha, Reino Unido, França) a imprensa se tornou alvo de grupos de extrema-direita (neonazistas, hooligans e sovranisti).O vídeo de apresentação do relatório exibe agressões a jornalistas em manifestações relacionadas à pandemia.

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